Seu cérebro liga para sotaques?

segunda feira, 21 de maio 2020 - Isabella Louise Ramos de Assis

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Existem dois tipos de sotaque: o regional, característico de falantes da mesma língua, mas que falam a mesma coisa de forma diferente — o carioca e o baiano não falam “relação” do mesmo modo, por exemplo —, e o estrangeiro, ou seja, de outras línguas. Se existem dois tipos de sons relativos à linguagem a serem captados, o que faz parte de nossa língua e o que não faz parte, o cérebro os processa da mesma forma? A resposta é não.

      Ao receber o estímulo sonoro de uma fala, nosso cérebro reage de acordo com a sua familiaridade com o som. Ou seja, quanto mais o som for próximo ao repertório fonético de nossa língua e, por consequência, mais

de acordo com nosso conhecimento fonológico, maior será a resposta neurofisiológico no nosso cérebro. Do modo oposto, quanto menos o estímulo puder ser inserido nos padrões fonéticos de nossa língua, menos reação nosso cérebro terá.

         Sendo assim, concluímos que sotaques diferentes dentro de nossa própria língua são mais percebidos e valorizados pelo nosso cérebro do que a fala estrangeira. No entanto, mostrando a complexidade do processamento de linguagem, até mesmo dentro de nossa própria língua, há modos diferentes de nossa mente receber seus sons. Provando isso, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se dedicaram a estudar como o cérebro percebe as diferenças fonéticas de determinada sílaba de palavras do português brasileiro com grafia idêntica, levando em consideração a sílaba tônica ou sua posição em relação a ela. Por exemplo: a sede de querer beber água não é a mesma que a sede de uma empresa — por isso, foneticistas descrevem o “e” diferenciador com os símbolos do alfabeto fonético [e] e [Ɛ], respectivamente — e a sílaba que diferencia foneticamente as palavras (-se) é, em ambas, tônica. Por outro lado, “sêdar” e “sédar” são apenas dois modos distintos de dizer o mesmo: sedar. Nesse caso, a sílaba que distingue, por exemplo,  a diferença do sotaque carioca e pernambucano, é pré-tônica — antes da sílaba tônica -dar.

       

        Nessa pesquisa, o que se busca flagrar é o momento inicial, em questão de milissegundos, de percepção dessas diferenças, no qual  o cérebro “filtra”, de forma inconsciente ao falante e relativa puramente ao processamento, o que é informação relevante a ele e o que não é. As sutilezas desse tipo de resposta neurofisiológica podem ser capturadas com eletroencefalografia (EEG). Um exemplo de um resultado assim é  ilustrado no gráfico ao lado que mostra uma resposta forte a um fonema conhecido (esquerdo) e uma resposta fraca a um fonema desconhecido (por não ser na língua nativa do ouvinte, a direito). Podemos mostrar a diferença de pico também de outra maneira, como nas imagens abaixo.

Essas são imagens dos resultados da pesquisa captadas pelo EEG dos picos da onda cerebral, em cores, nos primeiros 200 ms após a exposição dos estímulos do tipo sedar e sede. Quanto mais claro o azul, como na primeira imagem, menos é a diferença entre os picos das ondas — a diferença fonética entre as pré-tônicas s[e]dar e s[Ɛ]dar, o par referente ao sotaque, é praticamente “ignorada” pelo cérebro. Enquanto isso, a distância entre os picos (ou seja, a grande diferença entre respostas neuronais) da segunda imagem sendo de um azul mais escuro representa a importância da diferença fonética nas sílabas tônicas de s[e]de e s[Ɛ]de, já que ela é o que difere duas palavras distintas e com sentidos diferentes uma da outra.Podemos concluir, então, que, quando a informação sonora trazida ao cérebro não oferece relevância na distinção de sentido, tanto dentro quanto fora da língua, ela é ignorada pelo cérebro durante seu processamento. Sendo assim, podemos dizer que, apesar de devidamente percebê-lo, não, seu cérebro não “liga” para sotaque regional.

REFERÊNCIA:

Daniel Márcio Rodrigues Silva & Rui Rothe-Neves Context-dependent categorisation of vowels: a mismatch negativity study of positional neutralisation Language, Cognition and NeuroscienceVolume 35, 2020 - Issue 2