Após mais de 50 anos: imagens de cérebro finalmente trazem evidências para a hipótese de Sapir-Whorf?

segunda feira, 24 de fevereiro 2020 - Fabrício Gomes

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A Hipótese Sapir-Whorf, de Edward Sapir, que propõe que as pessoas vivem de acordo com suas culturas em universos mentais totalmente díspares e que estão determinados pelas diferentes línguas que falam. A hipótese foi recentemente revisitada no filme A Chegada (2016), em que a linguista Louise Banks (Amy Adams) decodifica uma língua alienígena mostrando uma palavra, em inglês, para os alienígenas (além de fazer mímica da mesma) e, em seguida, os alienígenas respondem com um correspondente de tal palavra em sua

língua. Após aprender a língua alienígena, a linguista experimenta enxergar o mundo de uma forma diferente, vivenciando o tempo em dimensões paralelas, de acordo com a língua extraterrestre.

 

      A ideia que a língua determina a visão de mundo de cada indivíduo tem instigado a imaginação, a ciência, e às vezes, lendas urbanas persistentes. Assim, os habitantes da Groelândia, falantes das línguas esquimó-aleútes, teriam centenas de palavras para neve, o que os levaria a uma capacidade de enxergar inúmeros tons diferentes de branco. Da mesma forma que falantes de inglês fazem a distinção entre verde e azul e as anuências entre ambas, falantes de Tarahumara (uma língua mexicana) não enxergariam tal distinção, pois possuem apenas uma mesma palavra para ambas as cores. Na sua forma extrema, isso significaria que os seres humanos desenvolvem capacidades cognitivas distintas e modos de recortar a realidade totalmente diferentes em função da língua que eles falam. Já imaginou a confusão que seria tentarmos aprender todas as palavras que significam ‘neve’ e, além disso, entendermos como cada uma se aplicada à realidade de acordo com a visão de mundo de cada cultura?

 

        Vários estudos já refutaram a noção determinística, como preconizada por Sapir-Whorf originalmente, que a língua determina, ou seja, restringe nossa capacidade de, por exemplo, perceber cores. Afinal, não faria muito sentido que os falantes nativos de Dani (falado em Papua-Nova Guiné) só enxerguem duas cores, simplesmente porque na sua língua tem apenas duas palavras para rotular cores: ‘escuro’ e ‘claro’. Mas será que a maneira a qual o nosso cérebro distingue cores e as nomeiam é influenciada pelo nosso conhecimento linguístico?

 

       Cientistas do Departamento de Linguística da Universidade da Califórnia em parceria com o Departamento de Radiologia Diagnóstica da Universidade de Hong Kong desenvolveram uma pesquisa para entender melhor quais regiões do cérebro possuem maior ativação quando deparado com cores que conhecemos e outras que não conhecemos. Os cientistas possuíam a hipótese de que os circuitos neurais do hemisfério esquerdo do cérebro participam tanto dos processos linguísticos quanto da decisão de percepção de cores, pois outros estudos já mostraram que a língua pode afetar outros processos cognitivos, como por exemplo, o modo em que as pessoas representam as relações espaciais e como elas codificam os objetos visualizados.

 

     Investigações psicolinguísticas já indicaram que a percepção visual afeta a rapidez de discriminação de cores. A maioria das pessoas reconhece cores com nomes distintos mais rapidamente quando eles são vistos no campo visual direito, pois esse se conecta mais diretamente com o hemisfério esquerdo do cérebro que é mais engajada com processos linguísticos (veja imagem abaixo). Assim o engajamento linguístico ajuda na distinção das cores pela ativação das palavras que distinguem as cores lexicalmente. Todavia, é importante enfatizar que o processamento linguístico não se destina somente a uma região cerebral, mas sim em várias áreas cerebrais, englobando tanto o hemisfério esquerdo quanto o direito do cérebro.

 

 

 

 

 

 

Fonte: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/corpo-humano-sistema-sensorial/visao-8.php

 

      No experimento, 17 falantes nativos de Mandarim foram expostos a dois quadros coloridos contra um fundo cinza, seguido por uma máscara também da cor cinza. Foram apresentadas cores de fácil identificação (na imagem A, abaixo: vermelho, verde e azul) e três cores não muito conhecidas (na imagem B, abaixo). Os indivíduos deveriam dizer se as cores apresentadas eram iguais ou diferentes, nomeando as três cores mais fáceis de serem identificadas ou ler em voz alta os equivalentes em Mandarim das três palavras de cores correspondentes em um projeto de bloco.

 

 

 

 

 

 

Adaptado de:  Language affects patterns of brain activation associated with perceptual decision. 2008. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2268832/>.

 

        Percebeu-se que a percepção das cores de fácil identificação e as que não eram tão fáceis ativaram áreas abrangentes do cérebro de um modo geral. Contudo, encontraram algumas evidências que apontam na direção de uma influência linguística. Por exemplo, a ativação cerebral de discriminação as cores mais fáceis de serem identificadas (vermelho, verde e azul) não era exatamente igual à ativação cerebral de cores mais difíceis de serem identificadas. Isso se faz subtraindo a ativação total resultante de uma condição experimental da outra, e se chama ‘subtração cognitiva’. Na imagem abaixo, podemos ver que a ativação relativa à discriminação perceptual de cores ‘fáceis’ estava relativamente mais relacionada com a ativação do hemisfério esquerdo do cérebro, este mais engajado com o processamento linguístico. Deste modo, o hemisfério esquerdo do cérebro está ligado tanto com processos linguísticos quanto com a percepção de cores.

 

 

 

 

 

Adaptado de: Language affects patterns of brain activation associated with perceptual decision. 2008. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2268832/>.

 

        Porém, o fato de a diferença ser bem pequena já nos mostra que não é somente o hemisfério esquerdo do cérebro que é responsável pela percepção visual em conjunto com o processamento linguístico feitos para associar uma cor ao seu respectivo nome. A imagem abaixo, por exemplo, mostra a subtração da ativação cerebral de uma tarefa visual que não envolve cores menos uma tarefa visual que envolve discriminar: (A) cores de fácil reconhecimento e (B) de cores de difícil reconhecimento (B). Podemos constatar que não somente a ativação é bem espalhada nos dois hemisférios, como também a diferença entre o resultado da subtração para cores ‘fáceis’ (A) é muito parecida com os resultados para cores difíceis (B). Ou seja, muitos estudos de imagem cerebral salientam diferenças na ativação neuronal que, na verdade, são muito sutis e pouco robustos.

 

 

 

 

 

 

 

Adaptado de: Language affects patterns of brain activation associated with perceptual decision. 2008. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2268832/>.

        A percepção das cores tende a engajar de maneira automática vários subsistemas presentes no cérebro, envolvendo os córtices visuais bilaterais, ou seja, ambas os hemisférios do cérebro participam de tal processo. Para a identificação de cores, tanto os locais do cérebro com mais engajamento com os processamentos não linguísticos (como os córtex visual) quanto os locais lateralizados à esquerda do cérebro relevantes para os processos da linguagem estão conjuntamente engajados para que o nosso cérebro identifique as cores e atribua nomes a elas.

 

        Em conclusão, a percepção de cores com nomes mais facilmente acessíveis ativam regiões presentes no hemisfério esquerdo do cérebro e estas mesmas regiões também participam dos processos de identificação do nome das cores quando uma cor é dita em voz alta. Segundo o experimento realizado, entende-se que a língua parece ativar padrões de atividades cerebrais no curso da percepção de cores. Retomando a hipótese Sapir-Whorf, a língua não determina o que podemos perceber, mas, sim, influencia como categorizamos cores, e, principalmente, como nomeamos cores e podem engajar circuitos cerebrais diferenciados. Também mostra que a concepção do funcionamento cognitivo atual é bem mais dinâmica do que proposta por Sapir-Whorf. Justamente o que estudos de imagem cerebral nos mostram é que a cognição funciona integrando de forma ultrarrápida e dinâmica vários aspectos cognitivos: cor, espaço, tempo, emoção. Ou seja, conhecimento de natureza variada compõe nosso entendimento. Ademais, o nosso funcionamento cognitivo é altamente adaptativo a o que é requerido de nós em um determinado momento. Dificilmente, a linguagem fica por fora desse jogo dinâmic o, pois, quando somos postos perante uma tarefa que exige raciocínio, decisão e interpretação (como distinguir ou nomear cores), a língua é um fator estruturante e adaptativo na construção de conhecimento. A linguagem é uma arma cognitiva poderosíssima.

 

Referência:

 

TAN, Li Hai, CHAN, Alice H. D., KAY, Paul, et al. Language affects patterns of brain activation associated with perceptual decision. 2008. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2268832/>. Acesso em: 05/01/2020.