E se Genie tivesse sido descoberta em 2017?

sábado, 9 de julho de 2017 - Viviane Roux

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mantê-la presa seria uma maneira de preservá-la.

 

        Quando resgatada, a menina não havia desenvolvido a linguagem ainda e falava pouquíssimas palavras como “pare” e “não mais” (“stop it”, “no more”). O caso de Genie, como ficaria conhecido, despertou grande interesse em médicos, psicólogos e linguistas que desejavam entender como seria o desenvolvimento de uma criança privada do convívio social em um momento da vida preponderante para o aprendizado, pois, foi justamente em 1967 que, no campo das ciências humanas, Lenneberg popularizou a tese do período crítico, que prevê que os primeiros anos de vida de uma criança são cruciais para a aquisição de linguagem.

        Muitos estudos foram feitos a partir de seu caso à época, porém, a ciência e a tecnologia se desenvolveram muito nos últimos anos, sobretudo na área de neurociência da linguagem, e este texto tenciona compreender como o caso de Genie pode ser entendido sob a luz de estudos contemporâneos sobre a lateralização do desenvolvimento da linguagem. 

 

        Dra. Susan Curtiss foi uma linguística na equipe de cientistas que acompanhou o caso de Genie de perto. Porém, ela não teve acesso à tecnologia de imagem de cérebro; a Ressonância Magnética funcional, por exemplo, só começou duas décadas depois (na verdade, em 1992). Curtiss usou métodos bem mais rudimentares, comparando tempo de reação a estímulos, como som e imagem, que foram seletivamente apresentados ao olho esquerdo, ou só ao ouvido direito, etc. Ela chegou à conclusão que Genie teria o lado direito do cérebro mais desenvolvido, como se o lado esquerdo tivesse de certa forma parado no tempo (talvez pelo fato de aos pouco menos de 20 meses ter sido enclausurada). Já outros médicos discordaram, apontando o lado esquerdo como dominante. Curtiss concluiu que a especialização para linguagem, geralmente refletida na lateralização (dominante no hemisfério esquerdo para 90% dos destros, e 50% dos canhotos), não correspondia ao desempenho linguístico de Genie (que era atípico).

 

         Cientistas observaram que ao mesmo tempo em que crianças definem suas destrezas, se serão mais habilidosas com a mão esquerda, direita ou ambas, também ocorre o desenvolvimento da linguagem. E que, para a grande maioria das pessoas, os processos cognitivos de linguagem engajam predominantemente o hemisfério esquerdo do cérebro, da mesma forma que a motricidade fina da mão engaja um hemisfério específico (seja esquerdo ou direito). Como ambos envolvem uma lateralização da organização cerebral que dá apoio a sua grande eficiência e automatização dos processos, há a possibilidade de entender o desenvolvimento da linguagem através do grau de destreza de uma criança, e mais ainda, inferir sobre seu desenvolvimento de linguagem através da especialização que a mesma faz no hemisfério esquerdo (FORRESTER, 2016). Assim, sugere-se que uma criança com pouca destreza em ambas as mãos, possa ter uma aquisição de linguagem atípica.

       

         Para testes modernos como o fMRI seria simples investigar se haveria, de fato, uma fraca lateralização de Genie (seja para direita ou esquerda). Tal lateralização pouco desenvolvida poderia ser a causa por seu fraco desenvolvimento linguístico (se ela já tivesse algum problema mental antes do enclausuramento, o que é uma possibilidade), ou, como fator consequente de ela não ter passado por um processo de aquisição de linguagem natural. Mas, hoje em dia, Genie voltou ao silêncio, e nenhum dos pesquisadores originais ainda tem acesso a ela. Parece que ela perdeu sua chance de recuperação, e a ciência perdeu a sua chance de resolver o enigma.

Referências:

CURTISS, Susan. 1977. Genie: A Psycholinguistic Study of a Modern-Day Wild Child. New York: Academic.

FORRESTER, Gillian. 2016. How Children’s Brains Develop to Make Them Right or Left Handed. Portal Elsevier SciTech Connect.

Blog Neurociência em Benefício da Educação. 

 

         

       Nos anos 70, na cidade de Los Angeles, autoridades norte-americanas resgataram uma menina que vivera trancafiada nos seus últimos onze anos de vida. Filha de pais que apresentavam certa desordem psíquica, pois o próprio pai fora o responsável por prendê-la a uma cadeira, Genie (nome fictício), esteve privada do convívio em sociedade desde pouco menos de vinte meses de idade. O pai, após o diagnóstico precoce de um médico que afirmara que a menina possuía certa lentidão ou retardamento, decidira que