A influência da primeira língua

no processamento posterior de linguagem.

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terça feira, 20 de novembro 2020 - Isabella Louise Ramos de Assis

         Mesmo que uma pessoa nunca mais faça uso da primeira língua à qual foi exposta quando criança, seu cérebro não esquecerá dela. Pelo menos é isso que postula a pesquisa da Universidade McGill e do Instituto Neurológico Montreal, que focou em como a primeira língua pode influenciar o cérebro e como essa influência pode mudar e se adaptar com o tempo em resposta ao aprendizado de uma nova língua posteriormente.

        A pesquisa se utilizou de três grupos de crianças de faixa etária dos 10 aos 17 anos. O primeiro grupo era composto de crianças que falavam apenas francês e foram criadas em famílias falantes apenas de francês. O segundo grupo consistia em crianças adotadas da China antes dos três anos por famílias falantes de francês e que nunca mais usaram o mandarim após isso. O terceiro grupo era de crianças bilíngues, falantes de mandarim e francês.

         Os cientistas se utilizaram de pseudo-palavras — palavras que não existem, mas que estão de acordo com a gramática da língua francesa — em francês para testar os três grupos. E, através de imagens de ressonância magnética, eles puderam perceber que, apesar de todas as crianças completarem as atividades — que consistiam em ouvir e falar parágrafos nas línguas utilizadas — sem dificuldades, áreas diferentes de seus cérebros eram ativadas em resposta aos estímulos linguísticos. Mesmo sendo a mesma língua e a mesma proficiência em francês, elas a processavam de maneira diferente.

Nas crianças monolíngues que nunca foram expostas ao mandarim, o giro frontal inferior esquerdo junto à ínsula anterior, áreas esperadas no processamento de sons de linguagem, foram ativados. No entanto, nos cérebros das crianças dos outros dois grupos, as bilíngues e as monolíngues que foram expostas ao mandarim, mais áreas se ativaram: principalmente giro frontal médio direito, córtex frontal medial esquerdo e o giro temporal superior bilateral.

         Deste modo, os cientistas concluíram que, apesar de não serem falantes de mandarim, as crianças que foram expostas à língua antes dos três anos processam linguagem de forma parecida das crianças bilíngues, o que os leva a crer que, por mais sutil que seja a exposição numa idade tão tenra, a língua ainda influencia a longo prazo a forma como o cérebro se comporta quando se trata do processamento de linguagem.

Essa descoberta leva a mais questões, como que áreas poderiam ser ativadas se as línguas, ao invés de francês e mandarim, fossem mais próximas, como francês e espanhol, e o que essa possível diferença na ativação das áreas significaria; ou se a idade até à qual a criança foi exposta influencia. Além disso, aumenta nosso conhecimento sobre a plasticidade do cérebro, e como ela funciona, e se mostra importante na possível criação de novas abordagens no ensino de segunda língua.

influencia.jpg

Imagem: Áreas similares do cérebro são ativadas quando bilíngues falantes de mandarim e francês (vermelho) e adotados internacionais (azul) fazem uma tarefa envolvendo os sons do francês. As áreas do cérebro que são ativadas nos falantes somente de francês aparecem em verde.

Baseado em: https://www.mcgill.ca/.../first-language-wires-brain...

Artigo original: https://www.nature.com/articles/ncomms10073