Alzheimer: análise linguística pode ajudar no diagnóstico precoce da doença

sexta-feira, 21 de agosto de 2020 - Fabricio Gomes Paiva

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          Pesquisadores da Associação Internacional de Alzheimer, em 2015, apresentaram dados mostrando que 46,8 milhões de pessoas possuem a Doença de Alzheimer (DA) no mundo e este valor deve alcançar cerca de 74,7 milhões em 2030 e 131,5 milhões em 2050. Japão, Itália, Grécia, Finlândia e Portugal atualmente são os países com a população mais idosa e isto faz com que vários estudos sejam feitos, a fim de saber a qualidade de vida da população.

          No Brasil, de acordo com os dados a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 55 mil novos casos de demência,

grande parte advinda do Alzheimer, são registrados todos os anos. Atualmente, 1,4 milhões de pessoas vivem com demência no Brasil.

          Aqui, veremos que os indícios linguísticos, como dificuldade em nomear objetos e comprometimento na leitura, podem ser os primeiros sinalizadores de DA. Desta forma, têm um papel importante no diagnóstico precoce da doença e no tratamento da mesma.

Alzheimer e seus primeiros indícios linguísticos

          Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que envolve tipicamente comprometimentos progressivos nas funções cognitivas, incluindo a memória, práxis (conhecimento voltado para relações sociais) e linguagem, com três fases (leve, moderada e grave).

          De acordo com pesquisadores da Universidade de Szeged (2015), alterações no processamento semântico desencadeiam erros semânticos em pessoas com DA. Ademais, dificuldades em encontrar palavras, nomear objetos e figuras, fluência verbal prejudicada, decisão lexical lenta, substituição de certas palavras por outras, produção de textos curtos com informações desnecessárias e vários erros ortográficos estão presentes nos primeiros indícios linguísticos em pessoas com DA.

          Com o progresso do quadro de DA, entre outras áreas, o córtex temporal fica afetado, o que pode explicitar as dificuldades com o conhecimento semântico, caracterizado por déficits nas funções linguísticas e de memória, como dificuldade em verbalizar de forma clara e precisa, segundo os estudos dos mesmos pesquisadores, na Hungria.

          Estudos com neuroimagem anatômica ou funcional, como o fMRI (Imagem por Ressonância Magnética funcional), mostram que danos no córtex do hemisfério esquerdo na fase inicial de DA podem ser identificados com testes clínicos comuns de memória semântica, isto se a memória episódica (eventos autobiográficos) estiver controlada durante o teste clínico, para se obter os resultados claramente.

          Ao decorrer da doença, a linguagem pode ser comprometida de forma desproporcional, ou seja, os sistemas de linguagem semântica/pragmática são mais prejudicados do que a sintaxe. Os déficits nas funções da linguagem lexical, semântica e pragmática estão tipicamente presentes na fase leve de DA. É interessante enfatizar que os domínios articulatórios e sintáticos da produção da linguagem permanecem intactos até os estágios finais da doença.

Fonética e Fonologia

          Logo na fase de comprometimento cognitivo leve, as mudanças linguísticas mais características são as hesitações mais longas e menor taxa de fala espontânea. A fala mais devagar com pausas mais longas do que o normal, assim como gastar mais tempo para encontrar a palavra correta, são marcantes. Acarretando, então, na não fluência do discurso ou “mensagens quebradas” (fala de partes do que gostaria de falar, ao invés da mensagem completa).

           Por um lado, a leitura na fase leve é marcada pelo discurso e taxas de articulação reduzidas, baixa efetividade do tempo de fonação, além do número e proporção de pausas reduzidos.

Por outro lado, em casos moderados ou graves, há mais mudanças temporais sérias no discurso espontâneo, como o número de hesitações e aumento de tempo de fala, em comparação aos casos leves. Ademais, o léxico mental (informações sobre o significado e pronúncia) pode ser mais difícil de acessar.

Semântica e Sintaxe

          O erro linguístico mais comum, ou até mesmo óbvio, é o uso de hiperônimos (palavra que inclui um grupo de palavras que pertencem à mesma categoria) ao invés do nome específico de tal objeto, como por exemplo, falar “transporte” ao invés de “ônibus” ou “metrô”.

           Pessoas com DA podem construir sentenças com déficit de concordância verbal. Por exemplo, “os meninos comer lasanha hoje” ao invés de “os meninos comeram lasanha hoje” . Esses marcas morfossintáticas não são aquelas típicas da variedade linguística (ex. os menino comeu) que estão dentro do leque de possibilidades do falante típico dependendo do contexto social, mas antes parecem um tipo de fala telegráfica, que porém também não chega a uma salada agramatical total (como em no exemplo lasanha comer meninos hoje os). As marcas sutís da agramaticalidade na morfossintaxe também são comuns de serem encontradas em pessoas com afasias por outros motivos.

Pessoas bilíngues com DA

           Segundo pesquisadores da Universidade de Bangor, a diminuição dos recursos cognitivos e lapsos de atenção em pessoas bilíngues com DA pode diminuir a habilidade linguística e acarretar numa mistura indesejada de línguas. Assim, muitas pessoas com DA e bilíngues acabam utilizando as duas línguas na fala e/ou esquecendo como se fala uma certa palavra na sua L1 (língua materna) ou L2 (língua estrangeira), causando confusão no discurso e até mesmo na escrita. As pessoas acabam criando construções como: “Eu like biscoito”, ao misturar o português com inglês, por exemplo.

           Assim, pode-se aferir que em pessoas bilíngues com DA, a língua estrangeira que aprenderam estará mais comprometida no que tange à fala, leitura e escrita do que sua língua materna.

Portanto, pessoas com DA antes mesmo de apresentarem qualquer sinal “mais comum” da doença, isto é, perda de memória e não reconhecimento de pessoas próximas, começam a apresentar indícios linguísticos na fala ou na escrita logo na fase leve de DA. Com estas características, DA pode ser detectada primeiramente com a ajuda de análise linguística do que com outros exames cognitivos.

 

 

 

 

 

 

Referências:

Evolução da Doença. Associação Brasileira de Alzheimer. Disponível em: <http://abraz.org.br/web/sobre-alzheimer/evolucao-da-doenca/>. Acesso em: 18/04/2020.

Rádio França Internacional. Casos de demência vão triplicar e chegar a 152 milhões de pessoas até 2050, diz OMS. Disponível em: <https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2019/05/14/casos-de-demencia -vao-triplicar-e-chegar-a-152-milhoes-de-pessoas-ate-2050-diz-oms.ghtml>. Acesso em: 02/06/2020.

Dinheiro Vivo. Estes são os 5 países mais envelhecidos do mundo e Portugal está entre eles. Disponível em: https://www.dinheirovivo.pt/lifestyle/galeria/estes-sao-os-5-paises-mais-velhos-do-mundo-e-portugal-esta-entre-eles/. Acesso em: 09/05/2020.

SZATLOCZKI, Greta, et al. Speaking in Alzheimer’s disease, is that an early sign? importance of changes in language abilities in Alzheimer’s disease. Frontiers in Aging Neuroscience. Lausanne, 20/10/2015. Disponível em: <https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnagi.2015.00195/full>. Acesso em: 18/04/2020.

STILWELL, Becca L., et al. Language changes in bilingual individuals with Alzheimer’s disease. International Journal of Language & Communication Disorders. Nova Jersey, Abril de 2016. Seção 113-127. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/1460-6984.12190>. Acesso em: 18/04/2020.

Hirni, D. I., et al. Distinct neuroanatomical bases of episodic and semantic memory performance in Alzheimer’s disease. Neuropsychologia 51, 930–937. 2013. doi:10.1016/j. neuropsychologia.2013.01.013