Efeito de agramaticalidade no cérebro:

o que é isso?

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terça feira, 23 de junho 2020 - Isabella Louise Ramos de Assis

Você talvez já tenha ouvido falar o termo “agramatical” sendo usado para se referir a desvios gramaticais da norma padrão, como se uma outra variedade da língua sendo empregada fosse errada e estivesse fora da esfera da gramática “correta”. No entanto, não concordar um verbo com seu sujeito no português brasileiro, como, por exemplo, em “nós vai”, não tem a ver com verdadeira agramaticalidade — afinal, esse “desvio” acontece de maneira sistêmica (já que a variante é sempre nós vai, e não nós vou; ou seja, a forma não varia arbitrariamente), de acordo com a estrutura da língua, e é uma variante popular no dia a dia da comunidade de fala do português do Brasil.

       Na verdade, o conceito de agramaticalidade tem uma definição bem diferente dentro da área científica da linguagem. Ela diz respeito a estruturas que se encontram fora do padrão estrutural de uma língua — ou seja, que não respeitam as formas fonéticas, sintáticas ou morfológicas comuns a um determinado sistema linguístico. Por exemplo, a expressão alemã “gesichtsausdruck” (“expressão facial”, em português) gera grande dificuldade na leitura ou audição de um falante nativo do português por conter junções de consoantes, incomum no idioma, e sons dificilmente encontrados em nossa estrutura fonética, mas que se encaixam perfeitamente nos padrões gramaticais do alemão. Ironicamente, traduzindo literalmente a expressão alemã, temos “facial expressão” (“gesichts” sendo “facial” e “ausdruck” sendo “expressão”), a qual é agramatical na língua portuguesa porque nenhum falante nativo dela produziria essa ordem das palavras. Mesmo assim, ela não deixa de ser perfeitamente aceita dentro do alemão.

 

       Justamente por essas formações agramaticais apresentarem elementos incomuns, nosso cérebro, “acostumado” aos padrões de nossa língua materna, demonstra particularidades no processamento — ou não processamento — delas. É uma tendência canônica na literatura da neurociência da linguagem que o cérebro demonstre dificuldade na recepção de palavras e sentenças agramaticais. Elas demandam mais esforço, refletido na maior atividade elétrica do cérebro, e ainda assim não serão processadas devidamente. Uma combinação de palavras agramatical no meio de uma sentença regular, como “Eu cheguei no *lá Rio”, por exemplo, pode transtornar as etapas do processamento dela e impedir o cérebro de realizá-las devidamente, afetando a integração semântica e sintática, por exemplo, para definir o sentido todo dessa estrutura.

 

          Por conta dessa particularidade das estruturas agramaticais em seu processamento neurofisiológico, pesquisadores de neurociência da linguagem e psicolinguística costumam usá-las em pesquisas como forma de comparar seus resultados com os de sentenças gramaticais, de modo a fazer novas descobertas sobre o processamento linguístico. Exemplos disso são violações sintáticas propositais — como a inversão da ordem obrigatória de palavras dentro de uma sentença, por exemplo.

 

         Quando participantes de estudos são expostos a esses tipos de estímulos agramaticais, geralmente evocam maior ativação no cérebro em relação a estruturas gramaticais, ou seja, de acordo com os padrões de sua língua. Essas diferenças na frequência das ondas cerebrais podem ser captadas com um eletroencefalografama (EEG) – um tipo de análise que se faz mapeando a atividade elétrica a partir de eletrodos colocados superficialmente no couro cabeludo [MS1] do  indivíduo. Graças ao EEG, pesquisadores conseguiram flagrar maior ativação durante o processamento de construções gramaticais mais complexas em áreas do cérebro diferentes das que mais se ativam no “processamento” de estruturas agramaticais.

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     Ou seja, a área que processa uma frase mais difícil de ser lida por ter mais elementos combinatórios (i.e. é sintaticamente mais complexa), como “A menina que foi à feira e comprou um abacate é bonita”, é diferente da área que processa estruturas impossíveis no português, como “A menina vou à feira”. Através dessa descoberta, pode-se inferir que, por serem processados em áreas distintas, esses processos podem ser diferentes.

 

Referências:

 

Friederici, Angela D., et al. “Processing Linguistic Complexity and Grammaticality in the Left Frontal Cortex”. Cerebral Cortex, vol. 16, no 12, dezembro de 2006, p. 1709–17. academic.oup.com, doi:10.1093/cercor/bhj106.