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sábado, 6 de abril de 2019

O que é bilinguismo bimodal?

 O que é bilinguismo bimodal?


Sempre escutamos falar sobre pessoas bilíngues e/ou que falam várias línguas diferentes, mas você sabia que não existe apenas um tipo de bilinguismo? Vamos entender mais sobre o bilinguismo unimodal e bilinguismo bimodal.

  •   O bilinguismo unimodal é quando o falante fala duas línguas diferentes, mas utiliza apenas um modo de expressar as duas línguas, ou seja, a fala sonora. A maioria das pessoas são bilíngues unimodais, por exemplo, quando alguém fala duas línguas (sonoras) ou mais, como falantes do português que sabem falar inglês também;
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  •     O bilinguismo bimodal é quando o falante de duas línguas diferentes utiliza duas maneiras diferentes de expressar as duas línguas, ou seja, a língua sonora e língua de sinais (no caso, sinalizar Libras). Acontece, por exemplo, com intérpretes de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) ou ASL (American Sign Language, em tradução para o português, Língua Americana de Sinais) ou com pessoas ouvintes que convivem com irmãos, filhos ou pais surdos na família. Isso é bastante comum já que de 200 crianças (nascidas no Brasil) 3 são surdas e nascem em famílias de ouvintes. Também existem pessoas surdas que dominam tanto uma língua sonora, como o português, quanto uma língua sinalizada, quando são oralizados.

Atenção: Pode existir um tipo de preconceito com relação às pessoas surdas. O fato de pessoas surdas saberem uma língua de sinais ao invés de uma língua sonora (devido a sua surdez) não significa que suas capacidades cognitivas sejam inferiores as de pessoas que não são surdas. Uma pessoa surda é tão capaz quanto uma pessoa não surda de aprender uma língua.

O fato de a pessoa ter o domínio de duas línguas com modalidades diferentes, não implica que seja fácil usá-las simultaneamente. Isso requer uma atenção acima do normal, e não é nada fácil.

Mas como isso funciona no cérebro?

É importante lembrar que as duas línguas, ambas faladas ou uma falada e outra sinalizada, engajam áreas no hemisfério esquerdo do cérebro. Hemisfério este fortemente engajado no processamento da linguagem. Estudos recentes feitos por cientistas da Universidade da Califórnia, colocaram monolingues unimodais falantes somente do inglês ou somente do ASL, e bilingues bimodais (não surdos) falantes de inglês e ASL para nomear figuras em modo bilíngue1 e a ideia de que existe uma “reserva lexical comum” foi apoiada pelo fato de que bilíngues conseguem ser preparados em compreender uma palavra em uma língua para logo em seguida produzir uma palavra na outra língua.

Ademais, pesquisas de comportamento e imagem neuronal mostraram que bilíngues provavelmente têm suas duas línguas ativas em certa medida o tempo todo. Mas bilíngues bimodais cometem menos erros do que bilíngues unimodais? Este mesmo estudo comprovou que bilíngues que utilizam a fala sonora como meio de expressar a língua competem com as duas línguas no cérebro podendo assim causar uma confusão ou erro na hora de falar, mesmo com um alto nível de proficiência, mas bilíngues bimodais não competem diretamente com as duas línguas, pois uma é falada e outra sinalizada, portanto, a troca entre línguas seria de um custo cognitivo menor. Parte de a habilidade de trocar entre línguas depende do nosso nível de atenção e agilidade cognitiva, porém, esse estudo apontou que justamente no momento da troca de língua ouvida para sinalizada são recrutadas as áreas consideradas específicas para o processamento linguístico (regiões posteriores temporais do HE). Talvez isso quer dizer que a capacidade de ser flexível entre línguas faz parte da maneira em que o léxico bilingue, mesmo quando é sinalizado e falado, é construído.

Com base em diferentes estudos feitos com bilingues unimodais e bimodais, podemos, assim, concluir que de fato as áreas ativadas em seus cérebros, tanto na produção quanto na compreensão da linguagem, são as mesmas. Porém, o uso duplo das mãos e boca causam um esforço cognitivo mais no cérebro, diferentemente dos bilingues unimodais que apenas utilizam a boca para a língua falada.

Notas:
1 – Modo bilíngue, segundo estudiosos, é a articulação e uso de duas línguas ao mesmo tempo, como o trabalho de um intérprete e um tradutor. Ou seja, ambos estão em modo bilíngue, pois estão em contato com duas línguas diferentes, mas não estão oralizando, por exemplo, as duas línguas. No caso do tradutor, por exemplo, o profissional precisa ler algo em uma determinada língua e escrever em outra. Modo monolíngue é a utilização de apenas uma língua por uma pessoa, como é o caso de falantes nativos apenas do português ou apenas do inglês (ou qualquer outra língua).

Fonte:
Ioulia Kovelman2, Mark H. Shalinsky1, Katherine S. White3, Shawn N. Schmitt4, Melody S. Berens1, Nora Paymer4, and Laura-Ann Petitto1,  Dual Language Use in Sign-Speech Bimodal Bilinguals: fNIRS Brain-Imaging Evidence. Brain Lang. 2009 ; 109(2-3): 112–123. doi:10.1016/j.bandl.2008.09.008.