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sábado, 13 de abril de 2019

Aprender língua de sinais demora mais que uma língua sonora?

 Aprender língua de sinais demora mais que uma língua sonora?

Uma criança adquire uma língua até os 7 anos de idade (em média), ou seja, até esta idade adquirimos nossa língua materna. Esse período também é chamado de período crítico ou sensível, por ser crítico que é neste momento que a criança precisa ser exposta à linguagem para adquiri-la. Pois, é quando o cérebro está com a sua plasticidade neuronal ideal para esse processo, e após esta idade, principalmente após a puberdade, pesquisadores afirmam que não somos mais tão capazes de adquirimos uma língua, mas sim aprendermos quantas quisermos. Parece a mesma coisa né? Mas muitos cientistas preferem distinguir entre os termos entre adquirir e aprender para enfatizar as diferenças marcadas no que diz respeito à velocidade e à eficácia de aprendizagem.
  • Adquirir = trata-se de adquirir nossa língua materna por meio do ambiente no qual estamos expostos desde o nascimento;

  • Aprender = trata-se de aprender uma língua através de estudos, por exemplo, como quando nos matriculamos em num curso de idiomas para aprender uma nova língua diferente da nossa língua materna.

Há também outros cientistas que disputam essa separação, tomando ambos os processos como aprendizagem; porém não há como negar que a influência da idade dos falantes afeta o processo de aprendizagem/aquisição qualitativamente.

Mas como isso acontece com pessoas surdas e como o cérebro delas se comporta quanto a isto?

O nosso cérebro é dividido em duas partes, chamadas de Hemisfério Esquerdo e Hemisfério Direito. O fato de os hemisférios se engajarem mais a certas tarefas cognitivas que outras faz com que cientistas interpretem que o cérebro designa certas áreas a tarefas cognitivas específicas. Assim, o hemisfério esquerdo é fortemente engajado ao processamento da linguagem. Da mesma maneira que o cérebro de uma pessoa falante de uma língua falada, como o português, guarda as informações linguísticas da língua no hemisfério esquerdo, o cérebro de uma pessoa surda também guarda as informações linguísticas da língua sinalizada que o mesmo é usuário. Mas existe uma pequena diferença.

Diversos estudos de universidades como a Universidade de Oregon e Washington mostram que existe um processo de bilaterização do cérebro de pessoas surdas diferente do processo que ocorre com pessoas falantes de línguas faladas. O hemisfério esquerdo do cérebro de pessoas surdas trabalha de maneira relativamente mais integrada com o hemisfério direito do que pessoas ouvintes. Os pesquisadores concluem que pessoas surdas sinalizadores têm essa característica para poder atribuir valores linguísticos a gestos e expressões faciais que para uma pessoa falante do português, por exemplo, não teriam um valor estritamente linguístico. Existe uma curiosidade quanto a isto: pesquisas científicas da Universidade de Rochester mostram que para esse processo acontecer com eficácia é importante que a língua seja aprendida antes da puberdade, ou seja, no período crítico. Observe os exemplos abaixo.

Língua de Sinais Americana (ASL) sem prosódia:


Língua de Sinais Americana (ASL) com prosódia:



É possível observar que, nas animações acima, o menino não possui expressões faciais enquanto sinaliza a ASL. Já na segunda imagem, o menino possui expressões faciais enquanto sinaliza a ASL. Os movimentos de sobrancelhas, bochechas, nariz e boca criam uma prosódia.

Mas o que é prosódia?

Prosódia é a parte da linguística que estuda a entonação, o ritmo, o acento da linguagem falada e demais atributos relacionados na fala. Assim, como as línguas sonoras possuem prosódia, com a LIBRAS, e outras línguas sinalizadas, como a ASL, não é diferente. Essas expressões faciais que as pessoas que sinalizam fazem são a prosódia da língua, assim como as mudanças de tons agudos e baixos das línguas sonoras fazem a prosódia sonora. Estruturas interrogativas em LIBRAS por exemplo são expressas por sobrancelhas levantadas, e grau aumentativo (ex. pezão) é acompanhado por bochechas enchidas com ar.
Devido ao papel importante do hemisfério direito no processamento espacial de modo geral, é possível que partes dele se engajam não só no reconhecimento de expressões faciais, mas também no processamento de relações visou-espaciais que estruturam a gramática de línguas sinalizadas; o que o torna suscetível ao recrutamento e especialização para o processamento de uma língua de sinais com contexto vivo espacial-linguístico.



Na figura acima, de um estudo de 2001 de pesquisadores da Universidade de Oregon, vemos como o cérebro se comporta vendo língua de sinais (ASL no caso), quando são nativos (imagem superior), que adquiram a língua de sinais desde cedo, e quando são não-nativos (imagem inferior), que aprenderam a língua de sinais mais tarde na vida. Nativos de uma língua de sinais possuem mais áreas do cérebro ativadas do que não nativos e ambos os hemisférios do cérebro se comportam com mais atividade em um nativo. A bilaterização em nativos é maior do que em não nativos, especialmente o engajamento de uma estrutura chamada de giro angular no hemisfério direito.

Portanto, da mesma forma que o cérebro humano é capaz de adquirir uma língua falada durante o período crítico (em média, até os 7 anos) – no caso, a língua materna de uma pessoa – este processo acontece também com falantes de línguas de sinais, como a LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) e ASL (American Sign Language, em português, Língua Americana de Sinais) quando são expostos a essa língua desde o nascimento. A grande preocupação é, por isso, colocar crianças surdas em contato com falantes nativos de uma língua de sinais o mais cedo possível, se não no contexto familiar, em uma escola especializada, ou um ambiente terapêutico.