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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Línguas de sinais são gestos?

Língua de sinais x Linguagem gestual

Você já se perguntou alguma vez se as pessoas surdas possuem linguagem? Se elas possuem língua? Ou até mesmo se o cérebro delas se comporta da mesma maneira que o cérebro de uma pessoa que não é surda – no que se refere à língua? Então prepare-se para descobrir e desvendar esses mistérios.
Você já deve ter escutado falar sobre a LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais. Ela é uma língua visual espacial, gesticulada em vez de articulada sonoramente. Há outras línguas visual especiais em outros países, como a ASL – American Sign Language (em tradução para o português, Língua Americana de Sinais). Ambas as línguas são reconhecidas como línguas em seus países e ao redor do mundo também. Mas será que essas línguas são tão diferentes das línguas sonoras? Ou seja, será que os falantes surdos meramente gesticulam ou que eles querem expressar? Se fosse assim, bastava um falante surdo chinês gesticular para um falante surdo brasileiro, e eles iriam se entender mais ou menos, não é? Pelo título do nosso texto, você deve estar se perguntando se há alguma diferença entre língua de sinais e gestual, não é mesmo? Bom, muitas pessoas pensam que as duas são a mesma coisa, mas não é bem assim. Vejamos:
     A língua de sinais é uma língua, não articulada sonoramente, utilizada por pessoas surdas para poderem se comunicar com o mundo ao seu redor. Cada sinal da língua possui valor linguístico, assim como as palavras presentes nas línguas faladas, como o português. Exemplo de línguas de sinais: LIBRAS e ASL.



 Imagem 1: a frase “eu amo você” em LIBRAS.



Imagem 2: a frase “eu amo você” em ASL.

        A linguagem gestual é uma língua empregada dentro de uma cultura e/ou sociedade e que possui valor simbólico, mas não possui valor linguístico. Por exemplo, um sinal de positivo feito com a mão ou uma brincadeira de mímica.
                      

Imagem 1: o símbolo de “positivo” ou “certo”.


Imagem 2: o símbolo de "coração" ou "amor".

Uma grande diferença entre símbolos gestuais e linguísticos é que os linguísticos se inserem em uma estrutura linguística; ou seja, eles formam frases e sentenças, eles podem flexionar dependendo de número (uma casa, muitas casas), ou dependendo da sua relação com as outros signos na sentença. Assim, as palavras sinalizadas na língua de sinais também se flexionam e se encaixam em sentenças. Uma outra grande diferença é que há símbolos gestuais que são compartilhados entre culturas com base semelhante, por exemplo, na cultura ocidental, de modo generalizado, preto é a cor do luto; já línguas se restringem a comunidades menores, e, portanto, muitos que compartilham da mesma cultura ocidental, falam línguas diferentes (como francês, alemão, português, etc.).
Já sabemos a diferença entre língua de sinais e linguagem gestual. Agora, como isso funciona no cérebro? Foi essa pergunta que os pesquisadores da universidade de Halifax em Canadá se fizeram. Eles escanearam o cérebro de falantes surdos da língua de sinais americana (ASL) e falantes ouvintes de inglês enquanto viam imagens de símbolos linguísticos de ASL e símbolos gestuais e compararam a atividade cerebral desses grupos em relação aos dois tipos de estímulos. Eles descobriram que, da mesma forma que uma língua falada, como o português, são as áreas temporais no hemisfério esquerdo do cérebro que mais se engagam na compreensão de língua. Isso podemos ver na imagem retirada do estudo de Newman e seus colegas de 2015.



Ao comparar, no hemisfério esquerdo, a ativação gerada em resposta a palavras sinalizadas em ASL com gestos quaisquers, vemos que para os participantes surdos (marcado em vermelho) a ativação em resposta a ASL é muito maior do que para gestos, justamente nas áreas associadas à compreensão da linguagem (giro frontal inferior e lobo temporal no hemisfério esquerdo). Já para os participantes ouvintes (marcados em verde) não houve quase diferença nenhuma entre ASL sinalizada e um gestos. Ou seja, um falante ouvinte de inglês não reconhece a diferença entre um gesto qualquer e uma palavra sinalizada; para um falante de surdo, eles são tão diferentes quanto um grito qualquer e uma palavra!

Mas existe uma curiosidade que talvez você não saiba e que diversos estudos já confiram tais hipóteses. Falantes de uma língua falada, como o português e o inglês, quando se deparam com alguma pseudopalavra (palavra que não existe em suas línguas maternas, mas que podia ‘soar’ como uma), como ‘puage’ ou ‘quiro’ - para o português -, o cérebro se questiona sobre tal palavra tentando atribuir um valor linguístico a ela, mas logo percebe que essa palavra não existe e a descarta em seguida. Da mesma forma acontece com a língua de sinais. Quando um falante da língua de sinais se depara com um símbolo que não existe em sua língua, primeiramente seu cérebro tenta atribuir um valor linguístico a ela, mas logo percebe que tal símbolo não existe em sua língua e seu cérebro a descarta logo em seguida.  Essa diferença podemos ver na imagem ao lado que mostram que o cérebro de participantes ouvintes (marcados em vermelhos) responde muito mais a gestos quaisquers, mesmo que não pertencem à ASL, do que participantes ouvintes (marcados em verde).
Assim como uma pseudopalavra é descartada para os falantes de uma língua falada, pseudosinais também são descartados por surdos. O reconhecimento das línguas de sinais como sendo, de fato, línguas foi tardio e ainda nos dias atuais essas línguas não são tratadas com a mesma importância que as línguas faladas. Saber que existe pessoas que necessitam dessas línguas para se comunicar com o mundo ao seu redor e poder ajudá-las é gratificante, mas o cenário ainda está longe de se equiparar com o ideal para ser uma sociedade de todos e todas.