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sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Norma Padrão e Língua Estrangeira: uma linha tênue


Ultimamente, temos nos questionado, cada vez mais, e de maneira mais reflexiva, a respeito da qualidade da educação em nosso país. Das poucas conclusões a que chegamos, uma delas é a de que não dá mais para mantermos um sistema de ensino do século XIX, com professores do século XX, que ensinam alunos do século XXI. Estamos cercados de novas tecnologias e, aparentemente, todas as coisas confluem para uma mudança na maneira de fazermos e entendermos educação.

Ainda que isso esteja felizmente acontecendo, ainda podemos notar, do lado de cá da margem do rio, bastante resistência no que diz respeito ao ensino de Língua Portuguesa no Brasil. O quadro atual é desanimador e fez das nossas crianças um lugar comum dos que não sabem se comunicar na convenção escrita da língua. Nosso problema, enfatizo, não é sobre escrever certo ou errado, mas sobre saber se comunicar, sobre fazer-se entendido na modalidade escrita. É claro e natural que esta culpa não cabe aos alunos, que aqui são muito mais vítimas do que qualquer outra coisa. Levantaremos, a partir de agora, algumas razões que nos trouxeram até aqui. Vou precisar da sua boa vontade linguística, que aqui serve de passagem para nosso barquinho.

Há anos o sistema educacional tem focado seus esforços, no que tange ao ensino de Língua Portuguesa (LP), no ensino de Norma Padrão (NP) - e, às vezes, tão somente NP. A linha entre LP e NP foi ficando tão tênue que, hoje em dia, ensinar uma é ensinar outra. Os melhores professores de nossa memória têm grandes chances de serem aqueles mais versados em sintaxe, para os quais uma Oração Subordinada Substantiva Objetiva Direta Reduzida de Infinitivo parecia a coisa mais simples do mundo. Aprendemos a escrever não focados em mecanismos de coerência e coesão, mas em estruturas prontas. Uma decoreba de cujos, hajas vistas, mesóclises e coletivos que jamais usaremos - compra-me uma pinacoteca? Não pense que estou abrindo mão da LP - a linguística jamais me deixaria. Estou convergindo ideias com linguistas como Faraco e Bertoni-Ricardo, que propõem sérias revisões do ensino de LP. E bebendo um pouco nas águas do gerativismo, a razão para isso é mais lógica do que pensamos.

De acordo com Mary Kato, uma linguista brasileira, temos, em nosso país, tamanha diferença entre a norma popular e a norma padrão que o aprendizado de norma padrão pode ser semelhante ao processo de aprendizagem de uma Língua Estrangeira (nossa famosa L2). UAU! Vejam só isso: a NP está tão distante dos nossos alunos que ensiná-la como a ensinamos hoje gera os mesmos transtornos que aprender uma Língua Estrangeira. E aqui entram aspectos vários próprios dos estudiosos das aplicações da linguística ao ensino de língua estrangeira, como Krashen (1985), que aponta questões como, por exemplo, filtro afetivo, que, dentro de nós, regula nosso aprendizado de acordo com o quão a vontade nos sentimos com a ideia de aprender aquela L2. Agora, aquela lógica aristotélica básica…

P1: A aprendizagem de NP pode ser comparada a aprendizagem de LE.
P2: Aprender LE requer certo cuidado com aspectos como filtro afetivo, que pode embarreirar a aprendizagem se estiver muito alto.
P3: É difundida, nos quatro cantos desse país, que a LP (na verdade NP) é muito difícil, o que pode assustar e bloquear o aprendizado dos alunos.
Conclusão: isso mesmo que você pensou.

Foi seguindo essa mesma linha de raciocínio que Michael Nevat (2014), analisou as diferenças entre o árabe falado e o árabe escrito (árabe literário) e provou, através de ressonâncias, que a ativação cerebral feita em um falante nativo de árabe quando ouvia o árabe literário não diferia de, por exemplo, hebraico, uma língua estrangeira. Isso significa que, cognitivamente, o árabe escrito e o hebraico estavam mais próximos entre si do que o árabe falado. Esse estudo, junto com o de Mary Kato, nos impulsiona, por exemplo, a investigar quais os padrões de ativação cerebral quando temos o português falado, o escrito em norma padrão e uma língua estrangeira como espanhol ou inglês, por exemplo, como parâmetros comparativos.

Outro fator que muito nos interessa nesse momento é o fato de algumas construções que se ensinam na escola já não serem mais construções de prestígio, como defendido por instituições normativistas. Tarallo em 1985 já estava estudando e provando que a unicidade da norma padrão não é tão verdadeira quanto parece, isto é, que a depender da região do Brasil, uma comunidade de fala pode considerar uma construção estigmatizada de maior prestígio (e vice-versa). Em seu estudo, ele identifica que uma construção como “Ganhei um sabonete que não gostei”, que chamamos de relativa não-padrão, estigmatizada pela norma, tem um prestígio social que a norma padrão não considera, o que corrobora a falta de unicidade da Norma Padrão em nosso território, justamente uma das prerrogativas de sua manutenção.

O que sugerimos, então? Sugerimos um ensino linguisticamente humanizado de LP, que leve em conta tudo o que os alunos trazem de casa. Que não se corrijam os alunos o tempo todo, ao menos nos anos iniciais, que os deixemos ter maturidade para entenderem o que são os níveis de adequação de fala, que os estimulemos a uma comunicação que não foca em escrever desse ou daquele jeito, “certo” ou “errado”, mas se fazendo entender o máximo possível, sempre. Que decorar coletivos seja substituído por entender as ricas estruturas dos diferentes gêneros textuais e que isso capacite nossas crianças a fazerem textos cada vez melhores e mais estimulantes - para eles, não para o nosso sistema.

Isso foi um pouco desenhado nos EUA, em 1996, quando a Oakland School, uma escola na Califórnia, decidiu ensinar ebonics - uma variante do inglês falada, sobretudo, pela comunidade afroamericana. Isso faria com que os alunos falantes dessa variante vissem, representado na escola, a variante do inglês que eles já traziam de casa, o que faria que eles tivessem, consequentemente, uma outra visão a respeito daquilo que falavam. Infelizmente, o plano não deu certo, muito por conta do conservadorismo linguístico presente na sociedade à época. A ideia de uma escola que ensine esse tipo e coisa, fere tudo aquilo o que aprendemos. É por isso, justamente, que antes de tudo é preciso bastante diálogo ou viveremos para sempre achando que não sabemos falar português.

BORTONI-RICARDO, Stella Maris et al. Por que a escola não ensina gramática assim. São Paulo: Parábola, 2014.
KATO, Mary. Gramática do letrado. Marques, MA; KOELLER, 2005.

KRASHEN, S. (1985). The Input Hypothesis: issues and implications. 4.ed. New York, Longman
NEVAT, Michael; KHATEB, Asaid; PRIOR, Anat. When first language is not first: an functional magnetic resonance imaging investigation of the neural basis of diglossia in Arabic. European Journal of Neuroscience, v. 40, n. 9, p. 3387-3395, 2014.