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domingo, 23 de setembro de 2018

Aprender línguas tonais? Nem aqui, nem na China




Pessoas que possuem como língua materna uma língua não tonal, como o português, por exemplo, apresentam grande dificuldade para aprender uma língua tonal, como o chinês, onde uma mesma palavra possui diferentes significados dependendo da tonicidade que o falante aplica na hora de falar uma palavra. A maior parte das línguas tonais estão presentes na Ásia, como na Tailândia e Vietnã. No caso do chinês, temos como exemplo wā – pio (com tom neutro)wá - velho (com tom crescente)wă – óculos (com tom levemente crescente)wà - por favor (com tom mais baixo).
Mas como o cérebro se comporta quando se depara com uma língua tonal? Falantes de uma língua não tonal não percebem as variações da mesma forma que um falante nativo de uma língua tonal, pois o cérebro de uma pessoa que está aprendendo tal língua não foi preparado nem “treinado” durante o período crítico de aquisição de linguagem (período que vai desde o nascimento até, em média, os 7 anos de idade) para falar uma língua tonal. Então, a parte do cérebro de uma criança chinesa (por exemplo) em seu período crítico está sendo amadurecido em relação à aquisição do chinês, pois mesmo não sabendo falar ainda, a criança está dentro de um ambiente em que o chinês é falado com maior ou total frequência, logo ela começará a perceber as diferenças que existem entre os tons (assim como vimos no exemplo do parágrafo acima) e poderá reproduzi-los conforme seu aparelho fonador se desenvolva. Crianças de línguas não tonais em seus períodos críticos passam por um processo similar para aquelas características que são importantes para o repertório fonológico da língua nativa delas. Como, por exemplo, para uma criança brasileira, a diferença entre v e f, como em faca e vaca.
Ademais, o cérebro se comportará de maneira diferente ao ouvir um som e identificar o mesmo. Por exemplo, como falante do português até somos capazes de registar modulações de tons, por exemplo, ao ouvir alguém falar chinês, mas dificilmente seríamos capazes de atribuir a essas variações algum significado específico, ou até mesmo distinguir as palavras. Kirsten Weber e Karl Magnus Petersson, junto com outros pesquisadores, fizeram um estudo com ressonância magnética funcional. Alguns cientistas compartilham da mesma hipótese para justificar essa dificuldade; as respostas cerebrais a padrões de altura (sonoras) que carregam funções linguísticas são lateralizadas para o hemisfério esquerdo, enquanto a informação não linguística de tom é preferencialmente processada no hemisfério direito. Em outras palavras, por mais que um aprendiz se esforce para perceber ou reproduzir um som que não esteja presente na sua língua materna, ele não irá fazer isso da mesma forma que uma pessoa que tenha esse som na sua língua materna.
Da mesma forma que aprendizes de línguas tonais possuem dificuldade para perceber e reproduzir os diferentes tons/maneiras de dizer uma mesma palavra, os aprendizes de línguas não tonais terão dificuldade de expressar tons que não estão presentes nas suas línguas maternas. No caso dos falantes nativos de chinês que aprendem o português, por exemplo, terão dificuldade em aprender a reproduzir o fonema /r/, pois este é um fonema que não está presente na língua deles.

Referência:
Weber, Kirsten; Christiansen, Morten H.; Petersson, Karl Magnus; Indefrey, Peter; Hagoort, Peter. fMRI Syntactic and Lexical Repetition Effects Reveal the Initial Stages of Learning a New Language. Pág. 6872 a 6878. Disponível em: <http://www.jneurosci.org/content/36/26/6872> Acesso em: 22/09/2018