Image Map

terça-feira, 28 de agosto de 2018

A influência quase invisível da língua




Não é de hoje que a relação língua x cognição vem sendo questionada dentro dos meios científicos. Desde a Antiguidade Aristóteles já anunciava que as categorias de língua e as categorias de pensamento poderiam estar intrinsicamente relacionadas. Ele até mesmo descreveu que haveria sete categorias dominantes e universais na língua e que estas seriam as mesmas propriedades fundamentais ao pensamento. Mas quem não concordou muito com isso foi Wilheim von Humboldt que disse que se Aristóteles fosse integrante de uma outra língua, que não o grego, estas categorias poderiam ter sido diferentes! E é aí que começa o nosso mistério...
Do que Humboldt estava falando em 1819 era da hipótese conhecida hoje como Relativismo Linguístico, que propõe que falantes de língua diferentes pensam de modos diferentes. Quem levou isso mais adiante foi o linguísta Edward Sapir e seu colega Benjamin Lee Whorf, os quais a Teoria é atribuída e que, não satisfeitos com uma proposta de relativismo, adicionaram à ela um fator determinante dizendo que o que determina essas diferenças seria a própria língua, podendo assim prever o pensamento a partir da língua que dele se origina.
Sabemos o quão delicado são essas afirmações e, é claro, que nem todo mundo concordou com os linguístas, fazendo com que a Teoria sofresse inúmeros ataques durante os anos; mas do que não podemos nos esquivar são de algumas evidências das quais a ciência acabou esbarrando ao longo do tempo...
Uma das mais recentes foi uma pesquisa realizada pela Universidade de Keio, em Tóquio, que investigou como a língua poderia influenciar o nosso comportamento cognitivo através da análise da distinção entre objetos e substâncias. O experimento foi realizado em 1997, quando grupos de falantes de inglês e japonês foram convidadas a determinar se uma certa entidade ou objeto, por exemplo, um espremedor de limão feito de cerâmica, foi mais parecido com outra entidade que partilhava da sua mesma forma, como um espremedor de limão feito de madeira, ou ainda , com o seu material, neste caso, pedaços de cerâmica. Os participantes também viram outras categorias, como objetos simples (por exemplo, um bloco de cera), e substâncias (por exemplo, área formando a letra S).
Os resultados do experimento foram surpreendentes. Enquanto todos os participantes associavam o espremedor de limão de cerâmica com o espremedor de limão feito de madeira, ou seja forma com forma, nas outras categorias já tinha diferenças entre os participantes. Assim, 57% das vezes os voluntários falantes em inglês associavam um S escrito com areia com a forma S escrita com algum outro material, enquanto que 85% dos voluntários falantes de japonês associavam esse mesmo estímulo mais facilmente a uma imagem do seu material, um pouco de areia. Além disso, a preferência dos japoneses pela associação a partir do material aumentava significativamente conforme a idade dos voluntários! 
A justificativa para isso foi esclarecida pela professora e especialista em ciência cognitiva Mutsumi Imai, junto com Dedre Gentner, especialista em mapeamento da estrutura do raciocínio, que comandaram o experimento [A cross-linguistic study of early word meaning: universal ontology and linguistic influence (1997)] mostrando que a distinção dos resultados entre o grupo de participantes pode ter sido resultado da própria distinção semântica em suas línguas, uma vez que os objetos em inglês podem ser evidenciados individualmente com base na diferenciação de sua forma, enquanto que em contraste, no japonês, os substantivos usados em sua língua não especificam uma individualização entre os objetos compostos pelo mesmo material.
Ou seja, falantes de inglês poderiam estar mais propensos a se concentrar na forma de um material, enquanto que falantes de línguas como o japonês podem tender a se concentrar mais no material do qual um objeto é produzido. De forma geral, isso implicaria em uma construção do real parcialmente diferente a partir de línguas distintas.

Mas poderia a língua assim ser tão determinante para as nossas escolhas?
Bem, estimulados por esta pergunta os Dr’s de Psicologia e Ciência Cognitiva de Harvard, Yarrow Dunham e Susan Carey, especialista em aquisição da linguagem e desenvolvimento infantil, replicaram este mesmo experimento em 2009, dessa vez com falantes de japonês, mandarim e inglês e registraram em [Of Substance: The Nature of Language Effects on Entity Construal (2009)] que além das descobertas anteriormente reconhecidas pela Universidade de Keio o assunto não parava por aí. Ao recriarem os testes com mais alternativas de resultados, constataram que tais diferenças entre as línguas não impediram os falantes de línguas como o japonês, por exemplo, de serem capazes de pensar sobre outra forma dos objetos que não somente sobre a de seu material!
Dessa forma não poderíamos provar que a língua é tão determinante assim como sugeriram Sapir e Whorf, pois não podemos esquecer que a construção do nosso processo cognitivo é por vezes ainda mais complexo do que imaginamos para ser justificado por um único fator determinante. Porém é inegável a atuação da língua no nosso cotidiano, podendo nos guiar para um ou outro caminho e dimensões específicas, como um holofote que escolhe quem ou o que irá destacar. E neste caso, o inglês e o japonês são somente um dos que foram iluminados neste caminho...
Não se sabe ainda até que dimensão estamos influenciados pela nossa língua, mas uma coisa é certa: ninguém está imune a ela.