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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Variação Linguística e a Neurociência



Variação linguística é um movimento natural de uma língua que varia por alguns fatores, como por exemplo, sociocultural, histórico e geográfico.  Estudos neurocientíficos revelaram que as variações sociolinguísticas são parte integral da nossa cognição social, e que nosso cérebro responde de forma seletiva às variantes que está ouvindo. Um estudo, por exemplo, acompanhou as repostas cerebrais de participantes escoceses enquanto ouviram três falantes nativos de inglês cada um com a pronúncia típica da sua região. Eles descobriram que é a parte do cérebro associada à regulação emocional, também envolvidos em processos de formação de memória ou aprendizagem, responde de forma mais sensível a aquele sotaque que é mais parecido com o seu próprio, assim destacando uma relevancia social maior no reconhecimento de membros do seu próprio grupo social em comparação com outros.
Também na língua portuguesa, assim como todas as línguas, existem variações linguísticas que estão presentes em todas as línguas. Linguístas já estão carecas de saber que a gramática internalizada que permite que falantes compreendem e produzem sua língua varia de acordo com a origem sociocultural da pessoa. Isto é, diferente da gramática normativa que aprendemos na escola– ou seja, as regras gramaticais prescritas de uma língua afirmando ser a forma “correta” da realização da mesma e assim caracterizando as demais formas de falar como “erradas”.  De fato, a língua está em constante “movimento natural”. Como assim? Sim, a língua é viva! Ela sofre diversas modificações durante os anos. Um exemplo é o caso da palavra afeto. Anos atrás, a escrita era afecto. Não só isso, mas ela também varia, por que os falantes variam nas suas características socio-culturais. Pessoas de lugares diferentes, faixas etárias diferentes, e de tipos de comunidade diferentes variam no modo de falar.
Apesar de a variação ser uma parte intrínsica da linguagem, e, portanto, da sua estrutura cognitiva, poucos estudos da neurociência cognitiva abordam esse assunto. Sabe-se que há uma rede neuronal envolvida na forma como nós compreendemos e produzirmos linguagem. São principalmente partes do lobo frontal e temporal do hemisfério esquerdo que é engajado, por exemplo, quando falamos ou ouvimos. Mas como isso tem ligação com as variações linguísticas?
Alguns pontos são discutidos por cientistas como por exemplo, o fato dos seres humanos fazerem associações detalhadas desenvolvidas pelos falantes da língua de acordo com o lugar em que estão, a variação na fonética mostra que a organização cognitiva se aplica a formas linguísticas que, de outra forma, não seriam conhecidas como estando sob controle dos falantes e experimentos sobre compreensão e identificação de dialetos demonstram que os ouvintes têm associações cognitivas detalhadas das variantes de linguagem com grupos de pessoas, independentemente de poderem ou não produzir as mesmas variantes. Um estudo feito nos Estados Unidos, por exemplo, mostrou que pessoas reconheciam palavras faladas com uma pronúncia diferente deles mais rápidamente se eles sabiam com antecedência qual era a origem geográfica do falante. Ou seja, você é capaz de ajustar sua percepção empregando seu conhecimento de sotaques diferentes dos seus, se você sabe de onde vem seu parceiro de conversa. Isso quer dizer que o conhecimento sociolinguístico, isto é, o conhecimento sobre as várias maneiras das pessoas falarem em decorrência das características socio-culturais de cada um, está codificado em nossos cérebros.
O fato de que os poucos estudos feitos na área de neurociência lidam com variações de de pronúncias decorrentes da origem geográfica e a percepção dessas variantes não deve ser coincidência. Por um lado, isso poderia ter a ver com a menor complexidade, relativamente, de estudos de percepção de som, em comparação aos estudos de compreensão de aspectos sintáticos ou semânticos. Esses últimos processos são cognitivamente mais complexos, e, portanto, mais difíceis de estudar. Porém, há também uma equação feita por leigos entre dialeto e variações fonéticas (ou seja, da pronúncia e percepção de sons da fala). Neurocientistas que raramente são estudiosos da linguística, mas antes da neurologia, psicologia ou biomédica, não escapam de um entendimento mais ‘senso comum’ do que vem a ser um dialeto. De fato, um dialeto se caracteriza por variações linguísticas no nível fonético, lexical ou sintático. E o dialeto pode estar associado tanto a caracterizações do prórpio falantes como a da situação da fala.
Porém mesmo que o termo “dialeto” não seja aplicado com um sentido negativo, acaba soando como um termo pejorativo, pois tem sido comum chamar de dialeto as línguas “simples” e “primitivas”. Dialeto é uma forma particular adotada por uma comunidade, na fala de uma língua. É muito comum ouvir que uma língua é formada por conjuntos de dialetos cujo os falantes da mesma língua conseguem se entender. Se pensarmos por um lado, pode ser que isto seja verdade, mas se analisarmos mais a fundo, vamos perceber que este argumento não parece ser válido quando falamos do alemão, por exemplo, já que existem variações linguísticas que são impossíveis de serem entendidas por pessoas falantes da mesma língua, porém separadas geograficamente.
 Pensando no português brasileiro, percebemos que as variações linguísticas que existem nesta língua não causam tanta dificuldade na comunicação entre os falantes, pois uma pessoa que mora em São Paulo, por exemplo, consegue se comunicar perfeitamente com uma pessoa que mora em Rondônia mesmo existindo algumas diferenças em seus vocabulários regionais.
Um exemplo simples é quando nós, cariocas, nos referimos a palavra Kombi (veículo) e tangerina (fruta). Estas palavras são faladas desta forma no Rio de Janeiro, porém em São Paulo é perua e mexerica, respectivamente. Outro exemplo, é a palavra aipim que comumente é falada desta forma no sudeste brasileiro, mas no nordeste brasileiro é macaxeira. Seria possível afirmarmos que isto é um dialeto? A resposta talvez seja que isto nada mais é do que uma variação linguística do português brasileiro de acordo com o ambiente em que ele está inserido.
Observamos assim, que o termo dialeto talvez não seja tão interessante usarmos por ser erroneamente associado a uma forma de falar mais primitiva, ou talvez a um único aspecto (o fonético) do conhecimento linguístico. Desse modo, o termo mais apropriado seria variação linguística.
Não faltam evidências e observações sobre o fato que o conhecimento sobre variação linguística faz parte do conhecimento inscrito nos nossos cérebros. Está na hora da neurociência descobrir onde e como!