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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Como é que é #1: Como é que é o DEL?

O Déficit Específico da Linguagem (DEL) é um, dentre outros, desenvolvimento atípico da linguagem e pode ser diagnosticado em crianças ainda durante o período crítico – o diagnóstico retardado, em adultos, também é possível. O DEL, em linhas gerais, versa sobre exatamente o que seu nome diz: é um déficit muitíssimo específico, que afeta somente a linguagem, “sem uma razão óbvia”, de acordo com o que nos conta a autora Dorothy Bishop. Uma criança portadora do DEL pode perfeitamente ter facilidade de aprendizado ou sua psicomotricidade e falas perfeitamente típicas, haja vista a ausência – ou a falta de necessidade – de ligação entre o DEL e essas outras habilidades citadas.
Justamente por ser tão específico é que existe tamanha dificuldade em desenhar um diagnóstico preciso desses casos. Uma pessoa com DEL pode viver perfeitamente por anos sem nem fazer ideia de que tem um déficit na linguagem, exatamente pelos fatores recursivos da língua, que permitem aos falantes fazerem caminhos alternativos quando os regulares não podem ser acessados.  Por exemplo, no português brasileiro, nota-se que crianças com DEL geralmente têm extrema dificuldade em perguntas do tipo “QU-” (aquelas iniciadas por Quem, Quando, Onde, etc.). Uma criança brasileira portadora do DEL possivelmente não responderá a perguntas como “Quem te trouxe aqui?”; ela provavelmente mudará de assunto. Mas quando perguntada “Foi sua avó quem te trouxe aqui?”, ela pode perfeitamente responder “Não, foi minha mãe”, o que garante a integridade de seu condicionamento psicológico, por exemplo.
Outro exemplo bastante comum dentre os casos de DEL no português é a dificuldade com as chamadas “relativas”. Ao invés de montar uma fala com orações dependentes ligadas por partículas como “que”, como em “O menino que é legal veio aqui”, o portador de DEL pode desmembrar as orações e reorganizá-las para que façam sentido da mesma forma, como, por exemplo, em “Você sabe aquele menino? Então, ele é legal... Ele veio aqui.”, que é um enunciado perfeitamente gramatical. Dessa forma, então, essas crianças (e adultos) podem sempre buscar caminhos alternativos sempre que precisarem falar ou escrever.
Durante muito tempo, como ressalta Dorothy Bishop, tendeu-se a acreditar que o desenvolvimento de DEL estaria ligado a fatores como, por exemplo, negligência dos pais, capacidade auditiva limitada ou até mesmo um dano cerebral ocorrido no momento do nascimento. Contudo, com o passar dos anos, os cientistas começaram a perceber que os fatores genéticos tinham um pouco mais de relevância no que se tratava de DEL, ao passo que mais e mais crianças acabavam sendo diagnosticadas mesmo sem uma razão específica, isto é, com pais atenciosos e psicologicamente capacitados, com perfeita capacidade de audição e sem aparente dano cerebral. Nesse sentido, acreditar que haveria uma falha genética em uma criança com DEL passou a fazer mais sentido e, conforme a própria Bishop nos conta, uma busca por achar um gene responsável pelo DEL foi iniciada. Essa mesma busca foi frustrada quando os estudiosos perceberam que a base para essa desordem seria muito mais complexa, uma vez que um gene, isoladamente, não daria conta de explicar todos os casos de DEL, como ocorre com outras doenças e transtornos que comprometem a linguagem, como, por exemplo, autismo e dislalia.
 Como quase todos os distúrbios da linguagem, o DEL não tem cura, justamente por sua causa não ser conhecida e por, hoje em dia, tender-se a acreditar que fatores externos e internos, juntos, contribuem para o seu desenvolvimento, mas um tratamento que deve ser seguido junto a um fonoaudiólogo em sessões em que o portador poderá passar a utilizar àqueles elementos da língua que seu cérebro não organizou durante o período crítico. Depois de achado o caminho para resolver o problema e pô-lo em prática, a presença do DEL diminui consideravelmente, proporcionando uma competência comunicativa mais abrangente em seu portador. A linguística ainda não conseguiu descobrir, juntamente com a neurociência e a fonoaudiologia, se esse tratamento faz com que o indivíduo portador de DEL aprende essas coisas como meramente um caminho alternativo (como se tais estruturas fizessem parte de uma L2 e ele as utilizasse de maneira mecânica) ou se ele recupera e/ou reconstrói os mecanismos perdidos e passa a utilizá-los de maneira orgânica, natural, como todos os outros recursos estruturais de sua L1.



BISHOP, Dorothy. What causes specific language impairment in children? Association for Psychological Science. V. 15 N. 5. Oxford, 2006.