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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A aquisição de fala no autismo

   As primeiras referências sobre o Autismo datam de 1943 e foram descritas pelo psiquiatra infantil Leo Kanner por meio do artigo “Autistic disturbances of affective contact” (Os distúrbios autísticos do contato afetivo). Kanner observou, em sua clínica, um grupo de crianças que mantinham certa obsessão pela rotina e também apresentavam, em relação a outras crianças, certo isolamento social. “Uma das características que mais chamou a atenção do psiquiatra foi a incapacidade que essas crianças demonstravam em se relacionar afetivamente e socialmente com outras pessoas” (CAMPOS, 2008).
          De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5 (DSM 5), da American Psychiatric Association, o autismo se caracteriza por prejuízos no campo da interação social, da comunicação verbal e não verbal, além da presença de estereotipias, comportamentos restritivos e repetitivos. Dessa forma, o manual prescreve que o diagnóstico do autismo deve ser feito de forma multidisciplinar, visto que um conjunto de elementos necessita ser observado para que a criança seja identificada  dentro do espectro ou não. O manual sugere, inclusive, que seja levado em conta não somente a observância, por parte do profissional de saúde no momento da consulta, como também, o relato do cuidador assim como do próprio paciente, caso seja possível.
           Ainda não se sabe ao certo a causa do transtorno, porém, já foi descoberto que nem todas as crianças autistas apresentam as mesmas características ou se comportam do mesmo jeito. O diagnóstico é somente clínico, não há exame físico ou de imagem que seja conclusivo. Recentemente, um estudo publicado na Revista Neuron, feito por Neurocientistas da Universidade de Columbia, sugere que uma das causas do autismo possa ser o excesso de sinapses no cérebro. Dessa forma, estão sendo desenvolvidos medicamentos que exerceriam uma espécie de controle de tais sinapses, tal controle promete ser promissor no que diz respeito ao tratamento e cura do transtorno visto que essa desordem de sinapses podem dar pistas das causas do TEA.
          Os autistas, a princípio, não possuem características físicas que impeçam a aquisição de linguagem, porém, algumas características do transtorno afetam significativamente suas interações interpessoais, o que ocasionaria em uma dificuldade de vivenciar experiências vitais para o desenvolvimento da linguagem. A psicóloga Campos descreve assim: “O extremo auto isolamento e a necessidade de  manter rotina seriam os fatores que contribuiriam para o atraso na linguagem. Como, a partir disso, as relações sociais da criança sairiam afetadas, a falta dessas relações, ou interações, acarretariam em alterações da linguagem.”
           Como a criança dentro do TEA tem muita dificuldade de se relacionar com o outro e, o engajamento afetivo é muito importante no momento de aquisição da linguagem, sua fala poderia ser prejudicada. Importante notar que esse problema seria um sintoma secundário, advindo do isolamento social pelo que passa a criança. Daí a importância dos pais ou daqueles que conseguem, de alguma forma, se aproximarem da criança. Aqueles em que as crianças confiam são os responsáveis por, justamente, fazerem essa ponte, são eles que, conseguem ajudar a criança a se relacionar com o mundo exterior. Por esse motivo também, os efeitos da terapia parecem ser ainda mais proveitosos quando se faz uma intervenção precoce.
          Apesar dos problemas para aquisição de fala, muitos autistas possuem certa facilidade para aprender línguas o que explica não possuírem dificuldades com a cognição linguística em si.  Porém, há dificuldade para se compreender termos abstratos. Crianças dentro do espectro só conseguem entender o que vêm ou experimentam. O mundo para elas se apresenta de forma concreta. Daí a dificuldade de compreender termos como “amizade”, “namoro”, sentimentos que nunca experimentaram e assim por diante. – Dificuldade para entender e se expressar no mundo abstrato.


         Alguns cientistas americanos do Centro de Autismo da Universidade da Califórnia/ San Diego têm trabalhado no entendimento do motivo pelo qual algumas crianças dentro do espectro desenvolvem a linguagem com certa facilidade e outras não. O que diferencia essas crianças? Para tal, os pesquisadores, através da Ressonância Magnética Funcional, mapearam o cérebro de alguns bebês diagnosticados dentro do espectro enquanto ouviam discursos, durante o sono. Posteriormente, verificaram que as crianças que tiveram melhores respostas cerebrais ao teste, desenvolveram a linguagem de forma mais satisfatória mais tardiamente, após os quatro anos de idade. Tal estudo poderá ser utilizado para detectar o atraso na fala antes mesmo dele se materializar, e, ainda, abre as portas para o desenvolvimento de novas terapias para o desenvolvimento da fala da criança que apresente dificuldades de aquisição de fala como decorrência do autismo. 



Referências: ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais 5 - DSM V. (trad. NASCIMENTO, M.I., .et al.). Porto Alegre: Artes Médicas, 2014. CAMPOS, A.M. Observando as conexões afetivas em crianças autistas. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. Orientadora: Carolina Lampreia. Rio de Janeiro: PUC, 2008. Brain Study Finds Evidence that Autism Involves Too Many Synapses. Disponível em https://www.autismspeaks.org/science/science-news/infant-brain-activity-predicts-language-development-autism. Acesso em nov/2017. Infant Brain Activity Predicts Language Development in Autism. Disponível em https://www.autismspeaks.org/science/science-news/infant-brain-activity-predicts-language-development-autism . Acesso em nov/2017.