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sexta-feira, 9 de junho de 2017

E se Genie tivesse sido descoberta em 2017?

          Nos anos 70, na cidade de Los Angeles, autoridades norte-americanas resgataram uma menina que vivera trancafiada nos seus últimos onze anos de vida. Filha de pais que apresentavam certa desordem psíquica, pois o próprio pai fora o responsável por prendê-la a uma cadeira, Genie (nome fictício), esteve privada do convívio em sociedade desde pouco menos de vinte meses de idade. O pai, após o diagnóstico precoce de um médico que afirmara que a menina possuía certa lentidão ou retardamento, decidira que mantê-la presa seria uma maneira de preservá-la.
         Quando resgatada, a menina não havia desenvolvido a linguagem ainda e falava pouquíssimas palavras como “pare” e “não mais” (“stop it”, “no more”). O caso de Genie, como ficaria conhecido, despertou grande interesse em médicos, psicólogos e linguistas que desejavam entender como seria o desenvolvimento de uma criança privada do convívio social em um momento da vida preponderante para o aprendizado, pois, foi justamente em 1967 que, no campo das ciências humanas, Lenneberg popularizou a tese do período crítico, que prevê que os primeiros anos de vida de uma criança são cruciais para a aquisição de linguagem.
Muitos estudos foram feitos a partir de seu caso à época, porém, a ciência e a tecnologia se desenvolveram muito nos últimos anos, sobretudo na área de neurociência da linguagem, e este texto tenciona compreender como o caso de Genie pode ser entendido sob a luz de estudos contemporâneos sobre a lateralização do desenvolvimento da linguagem. 
Dra. Susan Curtiss foi uma linguística na equipe de cientistas que acompanhou o caso de Genie de perto. Porém, ela não teve acesso à tecnologia de imagem de cérebro; a Ressonância Magnética funcional, por exemplo, só começou duas décadas depois (na verdade, em 1992). Curtiss usou métodos bem mais rudimentares, comparando tempo de reação a estímulos, como som e imagem, que foram seletivamente apresentados ao olho esquerdo, ou só ao ouvido direito, etc. Ela chegou à conclusão que Genie teria o lado direito do cérebro mais desenvolvido, como se o lado esquerdo tivesse de certa forma parado no tempo (talvez pelo fato de aos pouco menos de 20 meses ter sido enclausurada). Já outros médicos discordaram, apontando o lado esquerdo como dominante. Curtiss concluiu que a especialização para linguagem, geralmente refletida na lateralização (dominante no hemisfério esquerdo para 90% dos destros, e 50% dos canhotos), não correspondia ao desempenho linguístico de Genie (que era atípico).
              Cientistas observaram que ao mesmo tempo em que crianças definem suas destrezas, se serão mais habilidosas com a mão esquerda, direita ou ambas, também ocorre o desenvolvimento da linguagem. E que, para a grande maioria das pessoas, os processos cognitivos de linguagem engajam predominantemente o hemisfério esquerdo do cérebro, da mesma forma que a motricidade fina da mão engaja um hemisfério específico (seja esquerdo ou direito). Como ambos envolvem uma lateralização da organização cerebral que dá apoio a sua grande eficiência e automatização dos processos, há a possibilidade de entender o desenvolvimento da linguagem através do grau de destreza de uma criança, e mais ainda, inferir sobre seu desenvolvimento de linguagem através da especialização que a mesma faz no hemisfério esquerdo (FORRESTER, 2016). Assim, sugere-se que uma criança com pouca destreza em ambas as mãos, possa ter uma aquisição de linguagem atípica.
        Para testes modernos como o fMRI seria simples investigar se haveria, de fato, uma fraca lateralização de Genie (seja para direita ou esquerda). Tal lateralização pouco desenvolvida poderia ser a causa por seu fraco desenvolvimento linguístico (se ela já tivesse algum problema mental antes do enclausuramento, o que é uma possibilidade), ou, como fator consequente de ela não ter passado por um processo de aquisição de linguagem natural. Mas, hoje em dia, Genie voltou ao silêncio, e nenhum dos pesquisadores originais ainda tem acesso a ela. Parece que ela perdeu sua chance de recuperação, e a ciência perdeu a sua chance de resolver o enigma.

Referências:

CURTISS, Susan. 1977. Genie: A Psycholinguistic Study of a Modern-Day Wild Child. New York: Academic.