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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Mito ou Verdade: É possível aprender um novo idioma sem gramática?


Nesta série de três postagens, veremos as principais diferenças entre o processo de aquisição de linguagem e o processo de aprendizado de uma segunda língua (aqui, chamaremos segunda língua de L2), com o objetivo de desmistificar certas “verdades” que rondam o imaginário popular.

PARTE 1 – O processo de aquisição de linguagem 

          Como futuro professor de Língua Inglesa, eu não me furto a possibilidade de observar como diferentes escolas de idiomas constroem suas metodologias e como vendem isso para o mercado. Recentemente, deparei-me com uma (são várias, na verdade) escola que vende a ideia de que é possível aprender um novo idioma sem começar pela gramática, o que de fato ela tenta fazer, uma vez que os professores da franquia são instruídos a não usarem gramática em suas abordagens. Segundo entrevista a uma professora de uma unidade que preferiu não se identificar, “o aluno precisa perceber a regra que está sendo utilizada, os professores não podem explicar as regrar.” Ela ainda relatou que ela, por exemplo, precisa conjugar um verbo ininterruptamente até que o aluno perceba que um -s está sendo acrescido à terceira pessoa do singular do presente. Se você não achou esse relato absurdo, é extremamente necessário que você continue lendo este texto. 
           O equívoco dessa escola e de tantas outras é confundir dois processos distintos quando falamos em linguagem: a aquisição e o aprendizado. Nesta primeira parte, nos ateremos ao processo de aquisição e veremos, rapidamente, como ele acontece. 
           Adquirir uma língua é um processo que ocorre somente com crianças. Ao nascer, uma criança é cidadã  do mundo e, portanto, tem capacidade de adquirir qualquer língua a que for exposta, uma vez que consegue distinguir qualquer fonema. Para bebês, distinguir a diferença entre beach e bitch é extremamente fácil, mas, para nós, adultos, nem tanto. Quanto tempo você treinou até perceber a diferença? Durante os seis primeiros meses, enquanto balbucia, o que a criança está fazendo, na verdade, é testar  alguns dos fonemas possíveis para a musculatura humana, começando por aqueles que são mais fácies do ponto de vista articulatório, como ba e ma, por exemplo. A partir daí, o bebê começa a adaptar a estrutura silábica do que balbucia (sílabas com consoante-vogal (CV) ou vogal-consoante (VC)), dependendo do padrão mais recorrente de sua língua.
          Conforme os meses passam, as crianças começam a selecionar somente os fonemas que, de fato, usarão. Por exemplo, um recém-nascido brasileirinho pode testar sons de outras línguas, mas logo percebe que não tem utilidade e deixa aquele fonema desativado até que seja esquecido, para que possa focar no que realmente o interessa, que são os fonemas de sua própria língua. 
          Não vamos adentrar detalhadamente no processo de aquisição da linguagem. Vamos pular para a etapa em que, de repente, não mais que de repente, a criança desata a falar e nada mais a consegue parar. Ela atinge, por volta dos três anos, fluência em sua língua materna. Espero que você tenha reparado em uma coisa bem sutil, mas essencial: ninguém a ensinou absolutamente nada. Ninguém sentou com a criança para lhe explicar como plural funciona, mas ela sabe. Ninguém precisou explicar os artigos, os pronomes, a conjugação verbal regular; o seu cérebro captou todas as informações a que ela esteve exposta desde o ventre da mãe e montou uma gramática extremamente eficaz e complexa dentro de sua mente. Ainda é um mistério, até mesmo para os ávidos estudiosos de aquisição de linguagem, explicar como esse fenômeno acontece. 
          Estudos mostram ainda a capacidade que a criança tem de reconhecer regras de sua língua. Você pode clicar aqui (texto em inglês, por enquanto) para ver como Jean Berko concluiu que a maioria das crianças sabe o plural de palavras que nunca viu na vida. Ou ainda aqui para entender, mais profundamente, como as hipóteses de Skinner e Chomsky confrontaram entre si. Ainda vou deixar mais esse link, onde você pode ver que crianças conseguem adquirir mais de uma língua ao mesmo tempo, sem confundi-las. Clicando ou não clicando, o que precisamos concordar é que a aquisição de linguagem é algo que está intrínseco nas crianças e somente nelas. Exponha um adulto a uma língua nova e veja como ele aprenderá a partir de processos explícitos, seja a repetição, a inferência de regras através de lógica ou até mesmo seu conhecimento metalinguístico. Mas nunca naturalmente, como pregam algumas escolas de inglês. O que aqui nos leva para a segunda parte das três da nossa série. Clique aqui para ir até lá.