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domingo, 30 de abril de 2017

Entrevista com Jéssica Assis, pesquisadora da área de Neurociência da Linguagem


Na coluna “O que está estudando?”, conversaremos com graduandos e pós-graduandos que estão descobrindo a neurociência e veremos o que eles nos têm a dizer. A primeira entrevistada do nosso site é Jéssica Assis, de 21 anos, estudante de Letras da UERJ.

Nome: Jéssica da Silva Assis 
Idade: 21 anos
Curso: Letras Português-Literaturas (7º período)
Iniciação à docência para a matéria Neurociência e Linguagem

M: O que que você sabia da neurociência de linguagem antes de você começar a estudar? 

J: Honestamente, eu não sabia muita coisa, não. (...) Antes de entrar na faculdade, eu não pensava muito na relação cérebro-linguagem. Só depois de entrar na faculdade comecei a estudar mais especificamente, e fui entender que realmente tem uma área, ou algumas áreas do nosso cérebro responsáveis por determinadas coisas, mas isso é um tipo de conhecimento que eu acho que fora da academia não se chega muito. 

M: O que você acha que estudar a neurociência trouxe para seu olhar para linguagem? 

J: Ampliou bastante, mudou muito. Acho que foi uma oportunidade bacana de sair da minha zona de conforto, ter um contato com esse conhecimento. Realmente, amplia nossa visão saber que existem processos inimagináveis no nosso cérebro acontecendo, por exemplo, enquanto eu falo essa frase. O cérebro é uma maquininha que funciona muito bem.
E, principalmente em relação ao nosso foco, que foi os surdos [Jéssica estudou atividade neuronal de falantes surdos de ASL, língua de sinais americana], e a questão do bilinguismo [dos surdos que falam ASL e inglês], isso me trouxe uma noção muito enriquecedora. Eu estudei Libras - eu digo libras, porque isso foi uma outra coisa que mudou a minha visão de língua. Foi aí que descobri que aquele camarada ali, ele está produzindo sentenças, não são gestos à toa aquilo ali, existe uma sintaxe. E a neurociência trouxe essa visão de que os processos complexos que acontecem no meu cérebro, quando eu falo, acontecem também com aquele camarada quando ele está sinalizando. Para mim foi muito enriquecedor, pois dá a sensação que eu tenho um instrumento diferenciado (...) saber como o nosso cérebro funciona em relação a esses processos. Sinceramente, fiquei mais encantada com os caminhos que o cérebro toma para que ele consiga se comunicar. 

M: O que você acha que estudar a neurociência contribui para sua formação enquanto professora? 

J: Espero ainda estudar um pouquinho mais sobre aprendizagem. Mas ter uma noção sobre os processos que acontecem no nosso cérebro o tempo todo, acho que contribuiu, indiretamente, por ter alargada a minha visão; não sei se, no futuro, por exemplo, eu vou dar aula de português para surdos. 
Eu digo, indiretamente, porque eu acho que, enquanto eu estava estudando contigo, eu fazia essas reflexões: (...) por mais que no meu cérebro acontece a mesma coisa que no seu, que de alguma forma os caminhos sejam muito parecidos, a gente precisa respeitar o aluno - e isso sempre é dito nos cursos de formação de professores - a gente precisa singularizar o aluno. Não observar o aluno como se fosse o aluno ideal, e ficar rígido; você precisa flexibilizar, e teu olhar presica ser mais singularizante mesmo. 

M: Isso é algo que também é confirmado por estudiosos de aprendizagem na neurociência. Por exemplo, sabe-se que a memória é construída por várias vias, podendo envolver a emocional, a episódica, além da declarativa. E que a aprendizagem não é a mesma coisa que memorização – que na aprendizagem, reorganizamos o nosso cérebro, engajando várias interfaces possíveis, sensoriais, emocionais, procedurais, que é essa complexidade que contribui para a singularidade desse processo para cada pessoa.

J: É legal você ter falado dos caminhos de aprendizagem, porque acho que o professor precisa ser flexível, ele precisa estar observando qual é a demanda do aluno.  Eu tive a oportunidade de estagiar nas fases de alfabetização, e agora, após ter conhecimento da neurociência, eu reflito sobre minha prática lá, e eu fico pensando como é rico o processo, não é? O aluno está ali construindo um conhecimento novo, e você precisa respeitar seu processo. Acho que é isso.